Empatia, Pertencimento e Preconceito

(VEJA https://veja.abril.com.br/comportamento/jogos-universitarios-viram-palco-deofensas-racistas-alunos-da-usp-sao-chamados-de-pobres-e-cotistas)
O recente episódio nos Jogos Jurídicos, em que alunos da PUC hostilizaram alunos
cotistas da USP, trouxe à tona questões importantes sobre preconceito, pertencimento e
saúde mental. O psicólogo e neurocientista Dr. Julio Peres considera que tais ocorrências
são, infelizmente, recorrentes e compartilha suas reflexões e orientações sobre o impacto
de atitudes discriminatórias, as raízes dos equívocos e o que podemos fazer a respeito.

  1. Dr. Julio, qual é o impacto emocional de atitudes hostis como as presenciadas
    nos Jogos Jurídicos?
    Atitudes hostis, como discriminação e bullying, geram danos emocionais significativos,
    tanto para quem é alvo quanto para quem pratica. Essas ações podem ser
    traumatogênicas, comprometendo a autoestima, a segurança emocional e a confiança
    interpessoal. Além disso, inclinam-se à perpetuação dos ciclos traumáticos, “vítimas
    agora, algozes amanhã”, de exclusão e violência. Tais comportamentos têm como base a
    “ignorância”, na melhor concepção etimológica da palavra: ausência de conhecimento.
    Corrigir as rotas equivocadas com esclarecimentos sobre comportamentos saudáveis é
    absolutamente necessário para que as dores possam arrefecer e o bem-estar de todos
    prevalecer.
  2. O que é o pertencimento e por que é tão importante para a saúde mental
    mundial?
    Pertencimento é o maior patrimônio que podemos ter, porque nos confere
    simultaneamente uma identidade respeitada e valorizada, o sentimento de inclusão,
    assim como a conexão com outros, tal como extensão de nós próprios. Pesquisas em
    saúde mental no mundo têm mostrado que o pertencimento proporciona afetos positivos,
    como segurança, autoestima elevada, alegria e solidariedade. Esses sentimentos
    favorecem o bem-estar psicológico e têm impacto na saúde fisiológica, fortalecendo o
    sistema imunológico e reduzindo o estresse.
  3. Por que as diferenças interpessoais são frequentemente vistas como ameaça?
    As percepções humanas são imensamente projetivas. Muitas vezes, interpretamos o
    mundo com base nos preconceitos armazenados em nossa memória. Quando
    valorizamos apenas as diferenças, os mecanismos defensivos que podem levar à
    hostilidade e exclusão são exacerbados. Ampliar a consciência e valorizar as
    semelhanças são passos essenciais para transformar as dinâmicas equivocadas que
    geram sofrimentos. Afinal, é fato que não somos iguais, porém somos muito mais
    semelhantes do que diferentes.
  4. Como a empatia pode ajudar a prevenir episódios como esse?
    Empatia (do grego empatheia, que significa “sentir-se dentro de”) é a habilidade de se
    colocar no lugar do outro, enxergando e sentindo a experiência do próximo. Como
    psicólogo clínico há décadas, posso afirmar que a empatia é um dos principais
    pavimentos que levam ao bem-estar consistente, porque constrói pontes de
    compreensão, reduz significativamente a probabilidade de comportamentos agressivos,
    discriminatórios e julgamentos enviesados. Quando cultivamos a empatia, percebemos
    que todos pertencemos à mesma grande família humana.
  5. Quais estratégias podem ajudar a combater o preconceito e incentivar o
    pertencimento?
    A educação emocional é um pilar fundamental. Devemos ensinar a importância da
    empatia e do respeito nas escolas desde cedo, promovendo espaços de convivência
    onde as semelhanças sejam valorizadas e as diferenças respeitadas. É essencial
    amplificar a noção harmoniosa e indispensável da coletividade para o bem-estar de todos.
    O diálogo respeitoso na primeira infância e na pré-escola é uma base sólida contra o
    preconceito e a favor do entendimento do que é viver genuinamente bem. Por outro lado,
    a ausência desses cuidados resulta em ignorância e violência, que são, em última
    instância, a raiz das guerras que ainda ocorrem no planeta.
  6. Como podemos ampliar nossa percepção e enxergar além de preconceitos?
    Ampliar a percepção requer consciência para quebrar automatismos mentais e
    comportamentos inconscientes de manada. Isso inclui questionar nossos próprios
    preconceitos, buscar novas experiências e interagir com diversas perspectivas virtuosas.
    Conhecer e cultivar pelo menos duas virtudes é essencial para interromper
    comportamentos iniciais discriminatórios: coragem (etimologia: ato do coração) e
    generosidade (etimologia: nascimento do bem). Muito facilmente, sob o pretexto de
    supostas brincadeiras, o contágio de comportamentos de bullying ocorre sem a menor
    consciência da profunda dor que podemos causar, muitas vezes, por toda a vida daquele
    que sofreu a agressão. É fundamental perceber o outro, seja próximo ou distante, com
    brandura e clareza, em vez de projetar ideias enviesadas e preconcebidas.
  7. Qual é a mensagem principal para evitar que episódios como o dos Jogos
    Jurídicos se repitam?
    Precisamos compreender que pertencemos todos à mesma família humana e que nossas
    semelhanças são muito maiores do que as diferenças. O cultivo da empatia pode salvar o
    mundo, pois nos aproxima, promove harmonia e nos encoraja a cuidar uns dos outros
    como uma extensão de nós mesmos. Atitudes discriminatórias não têm lugar em uma
    sociedade que busca evolução, bem-estar e verdadeira justiça. Infelizmente, os conflitos
    que presenciamos nos recentes Jogos Jurídicos são mais frequentes do que imaginamos.
    Temos a responsabilidade de acolher uns aos outros como os irmãos que somos,
    incluindo aqueles que erraram por desconhecimento, oferecendo-lhes novas
    oportunidades de aprendizados assertivos e saudáveis, sem perpetuar os ciclos de
    sofrimento.
    Para saber mais:
    Razão & Prática: Olhares Terapêuticos sobre o Significado e o Uso das Palavras
    https://razaoepratica.com.br/pg-vd