Empatia, Pertencimento e Preconceito
(VEJA https://veja.abril.com.br/comportamento/jogos-universitarios-viram-palco-deofensas-racistas-alunos-da-usp-sao-chamados-de-pobres-e-cotistas)
O recente episódio nos Jogos Jurídicos, em que alunos da PUC hostilizaram alunos
cotistas da USP, trouxe à tona questões importantes sobre preconceito, pertencimento e
saúde mental. O psicólogo e neurocientista Dr. Julio Peres considera que tais ocorrências
são, infelizmente, recorrentes e compartilha suas reflexões e orientações sobre o impacto
de atitudes discriminatórias, as raízes dos equívocos e o que podemos fazer a respeito.
- Dr. Julio, qual é o impacto emocional de atitudes hostis como as presenciadas
nos Jogos Jurídicos?
Atitudes hostis, como discriminação e bullying, geram danos emocionais significativos,
tanto para quem é alvo quanto para quem pratica. Essas ações podem ser
traumatogênicas, comprometendo a autoestima, a segurança emocional e a confiança
interpessoal. Além disso, inclinam-se à perpetuação dos ciclos traumáticos, “vítimas
agora, algozes amanhã”, de exclusão e violência. Tais comportamentos têm como base a
“ignorância”, na melhor concepção etimológica da palavra: ausência de conhecimento.
Corrigir as rotas equivocadas com esclarecimentos sobre comportamentos saudáveis é
absolutamente necessário para que as dores possam arrefecer e o bem-estar de todos
prevalecer. - O que é o pertencimento e por que é tão importante para a saúde mental
mundial?
Pertencimento é o maior patrimônio que podemos ter, porque nos confere
simultaneamente uma identidade respeitada e valorizada, o sentimento de inclusão,
assim como a conexão com outros, tal como extensão de nós próprios. Pesquisas em
saúde mental no mundo têm mostrado que o pertencimento proporciona afetos positivos,
como segurança, autoestima elevada, alegria e solidariedade. Esses sentimentos
favorecem o bem-estar psicológico e têm impacto na saúde fisiológica, fortalecendo o
sistema imunológico e reduzindo o estresse. - Por que as diferenças interpessoais são frequentemente vistas como ameaça?
As percepções humanas são imensamente projetivas. Muitas vezes, interpretamos o
mundo com base nos preconceitos armazenados em nossa memória. Quando
valorizamos apenas as diferenças, os mecanismos defensivos que podem levar à
hostilidade e exclusão são exacerbados. Ampliar a consciência e valorizar as
semelhanças são passos essenciais para transformar as dinâmicas equivocadas que
geram sofrimentos. Afinal, é fato que não somos iguais, porém somos muito mais
semelhantes do que diferentes. - Como a empatia pode ajudar a prevenir episódios como esse?
Empatia (do grego empatheia, que significa “sentir-se dentro de”) é a habilidade de se
colocar no lugar do outro, enxergando e sentindo a experiência do próximo. Como
psicólogo clínico há décadas, posso afirmar que a empatia é um dos principais
pavimentos que levam ao bem-estar consistente, porque constrói pontes de
compreensão, reduz significativamente a probabilidade de comportamentos agressivos,
discriminatórios e julgamentos enviesados. Quando cultivamos a empatia, percebemos
que todos pertencemos à mesma grande família humana. - Quais estratégias podem ajudar a combater o preconceito e incentivar o
pertencimento?
A educação emocional é um pilar fundamental. Devemos ensinar a importância da
empatia e do respeito nas escolas desde cedo, promovendo espaços de convivência
onde as semelhanças sejam valorizadas e as diferenças respeitadas. É essencial
amplificar a noção harmoniosa e indispensável da coletividade para o bem-estar de todos.
O diálogo respeitoso na primeira infância e na pré-escola é uma base sólida contra o
preconceito e a favor do entendimento do que é viver genuinamente bem. Por outro lado,
a ausência desses cuidados resulta em ignorância e violência, que são, em última
instância, a raiz das guerras que ainda ocorrem no planeta. - Como podemos ampliar nossa percepção e enxergar além de preconceitos?
Ampliar a percepção requer consciência para quebrar automatismos mentais e
comportamentos inconscientes de manada. Isso inclui questionar nossos próprios
preconceitos, buscar novas experiências e interagir com diversas perspectivas virtuosas.
Conhecer e cultivar pelo menos duas virtudes é essencial para interromper
comportamentos iniciais discriminatórios: coragem (etimologia: ato do coração) e
generosidade (etimologia: nascimento do bem). Muito facilmente, sob o pretexto de
supostas brincadeiras, o contágio de comportamentos de bullying ocorre sem a menor
consciência da profunda dor que podemos causar, muitas vezes, por toda a vida daquele
que sofreu a agressão. É fundamental perceber o outro, seja próximo ou distante, com
brandura e clareza, em vez de projetar ideias enviesadas e preconcebidas. - Qual é a mensagem principal para evitar que episódios como o dos Jogos
Jurídicos se repitam?
Precisamos compreender que pertencemos todos à mesma família humana e que nossas
semelhanças são muito maiores do que as diferenças. O cultivo da empatia pode salvar o
mundo, pois nos aproxima, promove harmonia e nos encoraja a cuidar uns dos outros
como uma extensão de nós mesmos. Atitudes discriminatórias não têm lugar em uma
sociedade que busca evolução, bem-estar e verdadeira justiça. Infelizmente, os conflitos
que presenciamos nos recentes Jogos Jurídicos são mais frequentes do que imaginamos.
Temos a responsabilidade de acolher uns aos outros como os irmãos que somos,
incluindo aqueles que erraram por desconhecimento, oferecendo-lhes novas
oportunidades de aprendizados assertivos e saudáveis, sem perpetuar os ciclos de
sofrimento.
Para saber mais:
Razão & Prática: Olhares Terapêuticos sobre o Significado e o Uso das Palavras
https://razaoepratica.com.br/pg-vd