Ensimesmamento: tendência crescente de altos riscos
Por Dr Julio Peres
Vivemos um tempo paradoxal. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, ao
mesmo tempo, tão pouca disposição para o encontro genuíno com o diferente. O
ensimesmamento, esse movimento progressivo de fechamento em torno das próprias
crenças, convicções e referências, vem se consolidando como uma tendência
contemporânea de alto risco, com impactos diretos na saúde mental individual e coletiva.
Na literatura contemporânea, o que aqui denominamos ensimesmamento encontra
correspondência no conceito de inwardness, entendido como um funcionamento mental
voltado ao mundo interno, associado à imaginação, à memória autobiográfica e à
consciência interoceptiva. Em sua expressão madura, a interioridade favorece
autorreflexão, elaboração emocional e aprofundamento existencial. O problema surge
quando essa interioridade perde abertura, se rigidifica e se converte em um circuito
fechado, autorreferente e pouco permeável, aproximando-se de vieses como confirmação,
exposição seletiva e bolhas informacionais. Nesse ponto, o que poderia favorecer
transformação interior passa a empobrecer o pensamento, reduzir a revisão crítica e
fragilizar a saúde mental e a qualidade do diálogo coletivo.
No ambiente digital, esse fenômeno ganha uma dimensão ainda mais delicada e
potencialmente perigosa. As bolhas algorítmicas autorreferentes são alimentadas por
sistemas que aprendem com nossas preferências. Elas passam a nos oferecer versões
repetidas do que já pensamos, sentimos e acreditamos. O resultado é um espelho
perigoso e deletério, que reforça certezas equivocadas, reduz a complexidade e limita a
capacidade de revisão crítica. Em convergência, as pessoas passam a deixar de dialogar
com o mundo e passam a dialogar apenas com versões de si mesmas.
O mesmo movimento tem sido observado em alguns ambientes acadêmicos
polarizados. A cultura do cancelamento e da baixa exposição a ideias diversas tem
prejudicado sensivelmente boas universidades, comprometendo sua vocação essencial,
que é a busca pela verdade. A diversidade de perspectivas constitui um recurso valioso
para o aprimoramento do pensamento. Além disso, permite identificar vieses, ampliar a
compreensão de fenômenos complexos em outras faces e qualificar progressivamente o
pensamento crítico, reflexivo saudável. O desafio, portanto, consiste em integrar
diversidade de perspectivas e rigor acadêmico com maturidade. É plenamente possível
promover essa abertura sem comprometer os padrões de excelência. Algumas estratégias
eficazes incluem apresentar, de forma equilibrada, os melhores argumentos a favor e
contra determinada posição, estimular estudantes a exercitarem a defesa de ideias
opostas às suas e ampliar agendas de pesquisa para contemplar diferentes temas não
necessariamente convencionais com abordagens pertinentes. Trata-se de um cultivo
orgânico da pluralidade, conduzido com qualidade acadêmica, e não de uma imposição
artificial por critérios ideológicos.
A diversidade de ideias exerce amplamente a função relevante de favorecer a
construção do conhecimento, a formação de cidadãos mais conscientes, o fortalecimento
da confiança social, a redução da polarização, a mitigação da violência por preconceito e
a promoção da saúde mental global. Ambientes marcados por hostilidade e discriminação
ideológica costumam revelar fragilidade e insegurança. A agressividade frequentemente
emerge do medo, enquanto a tranquilidade se manifesta quando há segurança. Em um
cenário mundial marcado por tensões ideológicas crescentes e guerras, ampliar o diálogo
empático e respeitoso entre diferentes perspectivas abre portas para a convivência
saudável e reduz riscos de conflitos destrutivos. Quando reduzimos o campo do possível
ao já conhecido, deixamos de expandir fronteiras, corrigir erros e amadurecer
coletivamente.
Diante desse cenário de tendências ensimesmadas, uma orientação simples pode
ajudar a mitigar os crescentes riscos: a abertura com tranquilidade, respeito e
discernimento. Buscar deliberadamente o contato com ideias diferentes, escutar com
curiosidade genuína e sustentar, com serenidade, o eventual desconforto do contraditório
são atitudes que fortalecem a vida psíquica. Permitir que a própria visão de mundo seja
refinada pelo encontro amplia a maturidade emocional e qualifica o convívio social. É
nesse espaço de diálogo qualificado que os insights saudáveis encontram as melhores
condições para emergir e que a saúde mental pode, realisticamente, ser aprimorada.
Referências
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