imagem_destaque_30

Inocência Roubada

Vivi a maior parte de minha vida adulta assombrada por um fantasma. Aventurei-me a imaginar que pudesse controlá-lo ou, simplesmente, que as coisas tinham de ser assim. Na verdade, eu era o resultado ambulante de uma infância interrompida muito precocemente, mas só acordei quando a minha história bateu na porta da frente: agora era minha sobrinha de apenas oito anos que estava sendo abusada sexualmente por meu pai. E eu tinha de fazer alguma coisa…

Violência Sexual:
O Abuso de Poder Não raro, as pessoas que passaram por experiências de abuso sexual quando crianças desenvolvem involuntariamente uma constelação de sintomas dissociativos.

Metaforicamente, é uma estratégia adaptativa que possibilita a sobrevivência da “presa” em relação ao “predador”. O abuso sexual infantil em geral se dá em casa, praticado por um familiar repetidas vezes, o que torna a resposta de fuga ou ataque (reação adrenérgica) menos frequente e eficaz ou até inviável, pois implicaria um confronto direto com a figura do provedor (marido da mãe, pai dos irmãos), restando então a alternativa de “anestesiar” o ocorrido. A aparente mansidão decorrente do anestesiamento que grande parte das vítimas de abuso sexual manifesta esconde um sofrimento subjetivo muito intenso e, de acordo com alguns estudos, superior ao dos indivíduos que reagem de forma “adrenérgica”
Agora, você verá a história traumática e de superação contada pelo próprio paciente, que deseja compartilhar conosco suas valiosas passagens.

Toda criança constrói seu mundo em torno das figuras materna e paterna, e comigo não foi diferente. Tive uma infância comum, cercada por cuidados e pelos benefícios de pertencer a uma família de classe média alta. Contudo, o que se apresentava como uma calmaria aparente acabou se transformando no maior dos pesadelos: um núcleo familiar sombrio e pantanoso, marcado pela loucura de meu pai e a anuência velada de minha mãe.

Fui molestada sexualmente dos 10 aos 14 anos e, embora esse acontecimento tenha ficado restrito a um período de minha infância e adolescência, durante muito tempo eu carreguei comigo uma profunda ferida emocional, não cicatrizada, que despertava um sofrimento insuportável só de ser mencionada. Algumas sequelas foram imediatas: medo de dormir de luz apagada, vestir vários pijamas ao mesmo tempo, andar de pernas excessiva mente fechadas. No dia a dia, muitos classificavam a minha conduta como “estranha”.

Mais tarde, já adulta, outros problemas surgiram: distúrbios ginecológicos, sangramento uterino, gestação difícil, tudo isso como “pretexto” para evitar o contato sexual, algo muito comum para a maioria das pessoas, mas que para mim vinha associado à crueldade do incesto, a pior sensação que um ser humano pode experimentar.
A minha primeira reação foi de negação, afinal, como explicam os especialistas, o fato de a figura do agressor ser a mesma do provedor gera uma confusão de sentimentos difícil de administrar: amor e ódio, compaixão e vingança, admiração e repulsa. Assim, construí uma cerca em volta da minha dor, como se pudesse me manter a salvo de seus tentáculos, sem saber que eles poderiam escapar pelas frestas e minar o meu ser.

Negação, medo e vergonha me deram como alternativa de sobrevivência um estado de anestesia e insensibilidade, criado por mim mesma como se estivesse um pouco morta. Ao mesmo tempo, meu pai converteu-se a católico praticante, chegando a dar testemunhos de sua fé em grupos de oração, o que me fez acreditar que seria possível deixar o passado para trás.

Hoje sei que tudo não passava de uma breve pausa no círculo vicioso e sombrio no qual minha família vivia mergulhada, mas naquele momento acreditei que desfazer meu próprio rastro era a melhor forma de tentar esquecer o horror e continuar vivendo.

O tempo passou e eu procurava de todas as formas conquistar a independência financeira para finalmente sair daquela casa que tantas lembranças tristes me trazia. Casei-me aos 21 anos com o homem mais compreensivo e carinhoso que já conheci. A confiança que me transmitia foi decisiva para que eu seguisse em frente. Tivemos uma filha, hoje com 23 anos, e mais tarde adotamos outras duas crianças gêmeas.
Tornei-me terapeuta de casais e famílias, um tema que sempre me interessou muito, além de ser uma forma de revisitar e contribuir para tentar resolver as “doenças” da dinâmica familiar. Apesar de isso me trazer uma enorme compensação, não foi sufi ciente para exorcizar o fantasma do trauma e trazer de volta minha saúde física, mental e emocional até que…

O Raio Caiu pela Segunda Vez no Mesmo Lugar
Muitas e muitas vezes pensava em quantas mulheres cheias de potencial e com uma vida inteira pela frente sabotavam todas as possibilidades de relacionar-se com um parceiro, realizar-se profissionalmente e cumprir um destino feliz por causa do trauma gerado pelo abuso sexual.

A sentença do “quem cala consente” me atormentava profundamente, mas, ainda assim, pelas razões que já descrevi, optei por omitir, sublimar, camuflar o centro e a origem dos sofrimentos, disfunções, mal-entendidos e doenças em que minha vida se transformara.

Lembro-me de ter contado meu segredo apenas para um padre, em confissão, e anos mais tarde para minha irmã mais nova, que adoeceu e teve dificuldades de se recuperar de um baque tão intenso. Sou a mais velha de cinco irmãos, e sempre fomos muito unidos, até porque lá no fundo eu sabia que tinha de protegê-los de algo terrível que permanecia oculto sob a imagem de uma família acolhedora e perfeita. Talvez, por isso, a descoberta do que vinha acontecendo com minha sobrinha, fi lha de um dos meus irmãos, que costumava passar os dias na casa de meus pais, tenha sido tão devastadora, a ponto de me fazer pôr o dedo em uma profunda ferida.

Além de uma enorme culpa em relação ao que aquela criança estava passando – afinal se eu tivesse trazido à tona o crime de abuso sexual cometido por meu pai, provavelmente isso não teria se repetido –, fui tomada por uma sensação de revivescência insuportável, como se a mesma menina assustada e covardemente violada que eu fora no passado, tentando se defender com um monte de pijamas sobre o corpo, estivesse de volta. Na terapia, compreendi exatamente o problema: embora adulta, eu jamais deixara de ser aquela criança encolhida diante da figura de um pai todo-poderoso, capaz de fazer uso de sua autoridade e experiência para satisfazer os instintos mais primitivos.

O choque foi tão intenso que eu resolvi sair do casulo; mobilizei todos os meus recursos afetivos, emocionais e racionais na tentativa de ajudar minha sobrinha. Despi-me de todo o medo e a vergonha que poderiam me calar, pedi o auxílio de profissionais em quem confiava, esperneei, abri as gavetas, contei minha história, enfim, travei todas as batalhas até conseguir expor completamente a sujeira varrida para debaixo do tapete. E tive minha maior decepção justamente aí: embora não quisesse acreditar, todas as evidências indicavam que minha mãe havia sido conivente tanto no meu caso quanto no de minha sobrinha.

Nesse processo vieram à tona os requintes de sadismo que uma mente perturbada como a de meu pai utilizava para conseguir os seus objetivos. Até mesmo a técnica de hipnose, da qual ele fazia uso como dentista para tratar de seus pacientes em consultório, ele havia utilizado para abusar de duas crianças totalmente indefesas. Além de se tratar de um evidente caso de pedofilia, meu pai também foi diagnosticado com um elevado grau de psicopatia durante o tratamento psiquiátrico ao qual foi submetido após a descoberta de toda a verdade pela família.

Tenho consciência de que ajudei a salvar minha sobrinha, que também precisou de acompanhamento psicológico, mas não posso esquecer que ela também me salvou, pois a sua trágica experiência trouxe maior credibilidade à minha história, não permitindo que meus pais me fizessem passar por louca.

Ainda assim, toda essa mobilização foi demais para mim. Reviver o passado de uma forma tão repentina derrubou-me no chão, como se uma enorme placa de concreto tivesse caído sobre mim, esmagando toda a força e energia que durante anos procurei preservar mantendo minha história em segredo.

O bloqueio à realidade, aquele que me protegia da profundidade da minha dor, estava rompido e acabei entrando em um estado de depressão profunda, o mais forte que experimentara até então. Foi quando decidi procurar ajuda especializada no tratamento de traumas psicológicos e…

Finalmente, a Luz se Fez
Quando começaram as sessões de psicoterapia, eu já estava tomando antidepressivos, mas com pouco resultado. Não conseguia sequer tocar no assunto do abuso sexual, pois isso me desequilibrava, fazendo com que chorasse ininterruptamente.

Mas o trabalho seguiu seu curso por caminhos que eu nunca havia experimentado e os resultados surpreenderam. Aos poucos, fui percebendo o quanto sabotava minha vida pessoal e profissional, um reflexo da baixa autoestima incutida por meu pai ao longo dos anos, como mais uma de suas estratégias para me manter sob o seu jugo.
Identificados os meus pontos mais frágeis, a psicoterapia iniciou um trabalho de revisitar o passado várias e várias vezes até que eu me sentisse à vontade para “conversar” com a minha história, reconstruindo-a pelo lado positivo.

Nesse processo, questionava a mim mesma: Como isso é possível? Extrair algo de bom de uma experiência que havia me trazido tanto sofrimento?
De fato, enxergar a situação traumática por um outro prisma, enfatizando os aprendizados decorrentes, foi decisivo no meu caminho de superação. Com a ajuda do terapeuta, sintonizei todos os canais que poderiam contribuir para me trazer bem-estar e o resgate da autoestima. Por exemplo, o quanto fui determinada no papel de esposa e mãe, fazendo de tudo para manter saudável e feliz a família que formei – bem longe do modelo doentio do qual havia partido –; a capacidade que desenvolvi de identificar a origem do sofrimento nas famílias que atendia; a extrema empatia com as crianças e a habilidade na solução de seus conflitos, como se em muitos momentos conseguisse realmente “falar a sua língua”.

Difícil de acreditar, mas, além de todas as sequelas que amargara vida afora, todos esses ganhos eu também devia às experiências difíceis pelas quais passei. E, à medida que eu reconstruía a minha história pelo foco positivo, fui me demarcando os modelos nocivos da família no tempo e no espaço, diminuindo a dimensão que aquela criança ferida e insegura ocupava na minha vida adulta, chegando até mesmo a reconhecer em mim qualidades herdadas de meu pai, como a determinação profissional.
Após cerca de cinco meses de terapia, os resultados já eram visíveis. Consegui perder com facilidade o excesso de peso que havia anos me incomodava, passei a buscar e valorizar os momentos de prazer que a vida pode oferecer, como estar com a família em uma viagem de férias ou o simples ato de massagear a pele com um creme hidratante.

Se, por um lado, acabei afastando-me do convívio com meus pais, por outro, os laços fraternais com os irmãos tornaram-se ainda mais fortes, um tipo de relação que faço questão de cultivar. O sexo, por sua vez, deixou de ter aquela conotação traumática e tornou-se um aprendizado diário para o qual eu me disponho da forma mais serena e harmônica possível. No campo profissional, cheguei a aceitar um convite para uma apresentação importante em público, um desafio que até então não me sentia segura o sufi ciente para enfrentar.

Espero, sinceramente, que este depoimento também sirva de alerta para muitas famílias. Por favor, prestem mais atenção às suas crianças, pois elas sempre nos dão sinais daquilo que estão passando. Para aqueles que, como eu, sofreram abuso sexual, não há como negar a dor dessa experiência. Mas não podemos fazer dela um pretexto para apagar da memória as lembranças positivas e as conquistas que também fazem parte da nossa história. Pensar nelas sempre que a dor aperta é um grande alívio.

Na escuridão, não podemos esquecer de acender a luz.

Tags: No tags

Comments are closed.